quarta-feira, 3 de agosto de 2016

ESQUADRÃO SUICIDA [REVIEW]: A constatação de que os vilões da DC não são os melhores do cinema

Wooooow, Cinemaster! Cá estamos eu e você no longa que deveria dar uma espetacular guinada para o que a DC chama de Universo Cinematográfico. Acabei de sair da pré-estreia que a Warner realizou (são exatamente 00:31 da quarta-feira, 3), e vou te contar que é realmente frustante ter que escrever um review de uma produção que em nenhum momento pensou em mim, em você, nos fãs mais consistentes da DC, e o mais importante... um longa que não pensou e não soube articular a riqueza que estava em suas mãos.

As palavras que provavelmente mais vou utilizar nesse review são profundidade e superficialidade O primeiro elemento passou extremamente longe, enquanto o segundo... estava lá durante toda a exibição. E na cena mais emocionante da produção... Esquadrão Suicida se encerra. A seguir, caso você seja Cinemaster de primeira viagem, descrevo ponto a ponto todas as minúcias que merecem destaque. Mas pode ficar curioso que os destaques foram muito mais negativos do que positivos. Agora, o mais impressionante é que enquanto Batman V Superman era desajustado, Esquadrão Suicida realmente é repleto de picotes, erros de continuidade extremamente graves, um roteiro que não empolga e que se esforça, sem sucesso, para ser cativante e divertido! 

A HISTÓRIA: UM SEGUNDO ATO QUE NÃO ACONTECE

Como esperado e, de fato, era o caminho certo a ser dado o pontapé inicial, David Ayer começa a produção com a explanação de como cada personagem foi capturado. A partir disso, é perceptível que David quer me apresentar e te apresentar Cinemaster um longa que vem para ser pop, mais precisamente, fundamentado na pop art. Estão lá as luzes em neon, estão lá as cores chamativas, estão lá os movimentos de câmera eletrizantes, está lá uma montagem rápida, estão lá as canções de cada personagem (sim, a trilha sonora de Esquadrão Suicida é um problema sério para a narrativa). No resumo da ópera, está lá um bom início, quer dizer, um ótimo início. Esquadrão Suicida começa engajado e traz uma Amanda Waller que é capaz de fazer tudo para ficar bem com o governo americano. Ayer traz uma Viola Davis que chegou em 75% do que Waller poderia fazer. Faltou o traquejo do cinismo, de uma ironia mais aprofundada, de diálogos que despertassem o nosso medo pela personagem. E o mais curioso, Viola Davis estava totalmente disposta a se entregar ao papel, mas a Amanda Waller de David Ayer já é, em si, um tanto chatinha.


Com um primeiro ato que apresenta a interessante psicologia do Pistoleiro; a rápida, porém aceitável, vida da Dra. Harleen Quinzel ao lado do Coringa, e a captura dos demais personagens, as cenas iniciais montam toda uma base mediana, mas que poderia ser completamente solidificada no segundo ato. Por falar em segundo ato, que segundo ato?! Esqueça-o! Esquadrão Suicida não apresenta 2° ato. Na linha narrativa de qualquer longa-metragem tradicional, Cinemaster... o primeiro ato é para a apresentação dos personagens (David Ayer faz isso bem), o segundo ato é para a apresentação da problematização entre os protagonistas - é aqui que o roteirista insere testes para mostrar ao público o quanto as relações entre os personagens podem render bons frutos. E o terceiro ato é para a resolução da problematização. 

Antes de mais nada, é fato que uma questão orçamentária afetou Esquadrão Suicida. Eu realmente não vejo para onde foram US$ 150 milhões de um blockbuster, mas isso é um ponto que será explicado ao longo de efeitos visuais, trilha sonora e outros elementos. Mas o que eu quero chegar é nesse danado do segundo ato (hehehe). Por meio de diálogos simplórios e que não geram uma conexão íntima com o espectador, Esquadrão Suicida vai rapidamente estragando tudo o que havia mostrado. Duas cenas me deixaram extremamente decepcionado. Num primeiro take, eu e você somos apresentados a Katana, uma samurai com sangue nos olhos e que mata qualquer pessoa sem piedade. Não se passa nem 4 minutos de cena, e logo em seguida eu e você somos obrigamos a conferir a própria Katana chorando no canto de uma parede porque iria para uma "gigante batalha", enquanto conversava com seu marido - preso a sua espada. Detalhe, os poucos soldados dos vilões que eles haviam enfrentado há pouco já demonstravam que a "batalha final" não seria nada épica e que os próprios soldados eram fracos demais para aquele grupo fortificado. Então, porque a samurai estava chorando?! Pois é, não faz sentido!


O que mais me deixa chateado é que estamos diante de vários personagens extremamente inteligentes, mas que em nenhum momento o grupo chega a montar um plano complexo para tentar acabar com os reais antagonistas. Tudo soa muito simplório, falta emoção, falta o... "será que vai funcionar?". Mas o meu ponto X aqui é... os personagens não foram testados. A maior situação de perigo até então tinha sido lutar contra soldados do mega vilão, mas eram apenas soldados, e lá estava o Esquadrão Suicida simplesmente trabalhando de forma desajustada. Agora, note que o pseudo-segundo ato escrito por David Ayer se passa exatamente no mesmo período tempo (no caso, à noite) em que o grupo parte para o ato final. Não, não e não! Era necessário ter uma prova de força para que os personagens, assim que testados, demonstrassem ao menos uma humanidade pelo companheiro. Como, por exemplo, uma "batalha" interna na Belle Reve, entre os próprios personagens. Ideia essa que poderia até mesmo ter surgida pela mente da própria Amanda Waller. 

E o momento de transição do segundo ato para o terceiro... é realizado dentro de um bar. Wooooow! Tudo bem que estamos falando de vilões, e uma cena no bar pode parecer inesperada, mas não é o local ideal para que personagens mais humanizados se sintam realmente tocados a ajudar a tentativa de deter a destruição global. Quando a batalha final realmente começa... já é tempo perdido para desenvolver uma relação entre os personagens. E os laços entre eles são tão fracos... que soa estranho quando a Arlequina fala "você mexeu com os meus amigos". Amigos????????! Que amigos, vocês sequer se sentiram tocados pela vida do outro! O Pistoleiro mal teve tempo de falar da sua vida. Apenas o El Diablo mostrou o seu sensacional e tocante passado. Mas os personagens estavam tão desligados da real situação, que um dos momentos mais bonitos de toda a produção serviu apenas como um pulo do gato para Ayer. No fim das contas a ideia foi...Vocês se sentiram tocados pela vida do outro enquanto trocavam bebidas?! Não, por favor, não! =X A superficialidade realmente chega a irritar!

A vilã, algo que é complicado de falar sem dar spoiler, mas vou tentar... também cai no marasmo. E eu realmente gostaria de saber quem disse que Cara Delevingne sabia atuar. Mas enfim. Com um terceiro ato que David Ayer esquece o que é boa direção (Esquadrão Suicida é algo simplesmente filmado, não há tratamento visual nas cenas. Não há takes que impressionem pela direção. Tudo é muito, muito simplório), a história já perdeu a graça e o que me restou foi apenas assistir ao final que poderia até mesmo gerar um Woooooow! Mas David Ayer mostra a arma com que a vilã vai ser morta, antes de um dos personagens pegar o objeto para efetuar a ação. Resultado, não gera surpresa alguma. =X No resumo da ópera, faltaram elementos de conectividade íntima entre os personagens. E quando falta conectividade entre eles, o público dificilmente se entrega para o que vem a ser apresentado. A partir disso, o espectador torna-se um mero ser que está assistindo ao que está sendo exibido, ele não interage com a tela. Pior, ele não interage e nem se identifica com os personagens que estão em projeção. 

P.S. Um adendo que não se encaixa nos demais, mas que merece vir diretamente neste ponto do PostMovie-Review. Os erros de continuidade. Óbvio, todo longa tem erros. Isso é fato! Mas o cabelo e a barba de Rick Flag (Joel Kinnaman) sofreram mudanças significativas ao longo de cenas contínuas. Eu já vi o cabelo e a barba aumentarem durante o tempo, e não ficarem mais curtos. Note que o cabelo e a barba de Joel está um tanto maior quando ele e o grupo estão no helicóptero, mas quando o helicóptero cai, Rick já está de cabelo e barba aparados?! Whaaaaaat?! Pois é!

P.S.2. Nem tudo também é negativo! Há algumas cenas entre a Arlequina e o Coringa (vou explicar mais no tópico dos dois) que realmente parecem ter sido retiradas da série em animação onde a vilã fez sua estreia e em HQs posteriores.


VILÕES VS. HERÓIS 

Só um ponto X, Cinemaster... absolutamente todos os personagens de Esquadrão Suicida têm psicologias simplórias, são superficiais. Algumas são divertidas, mas outras, demonstram que nem mesmo o ator consegue salvar David Ayer da má condução de papéis.
   

PISTOLEIRO

Gosto e admiro Will Smith em longas de ação. Ele está muito bom como o Pistoleiro, mas o humor que Ayer criou para o personagem soa normal, nada que seja inteligente. Tudo bem que ele é um pistoleiro, mas o final da produção corrobora a ideia de que o personagem tem inteligência suficiente para conduzir de maneira grandiosa o desenrolar da narrativa.
   
ARLEQUINA

Margot Robbie é sensacional como pessoa e como atriz. Mas em Esquadrão Suicida, Robbie precisou seguir estritamente uma definição psicológica para a Arlequina criada pelo próprio David Ayer, e não criado pela atriz. Resultado, uma personagem totalmente manipulável, fraca e com uma inteligência que não condiz com a sua real psicologia. Fora que em alguns momentos Margot parece totalmente perdida em cena. Não acredito que seja culpa da própria Robbie, mas Ayer já se mostrou que não é um bom diretor de atores (e muito menos de ação).

   
KATANA

Com perfil de durona, mas que do nada chora porque vai entrar numa "suposta" grande batalha, Katana realmente merece ser explorada em outra produção, que não seja comandada por Ayer, claro.
 

SLIPKNOT

... Você vai entender as reticências assim que conferir a produção.
 

CROCODILO

Adewale Akinnuoye-Agbaje mostrou que sabe atuar de forma interessante. Mas ainda assim seus diálogos cômicos não geraram... nada demais. E sua voz, adicionada na pós-produção ficou extremamente artificial.
   
RICK FLAG

Joel Kinnaman realmente não traz o perfil convincente do militar que possui a função de liderar psicologicamente o Esquadrão. Vale lembrar que a primeira opção da Warner para Rick era o sensacional Tom Hardy.
   
CAPITÃO BUMERANGUE

Jai Courtney, de fato, funciona como o Bumerangue. Sua origem é legal, mas o humor proposto pelo personagem de nada adianta. Não empolga. E suas habilidades com o Bumerangue são úteis em apenas um momento. Resumo da ópera, tornou-se um personagem descartável.
   

EL DIABLO

O personagem que tinha tudo para ser o menos atraente, é na verdade, o mais legal! Depois da Arlequina e do Coringa, o El Diablo é o papel mais bem articulado por David Ayer. A sua dualidade de ter "perdido" a família e ter que usar os poderes que levaram justamente as pessoas que ele mais amava... o torna o mais interessante. E ao passar da história ele é mais do que essencial para a conclusão da trama. Jay Hernandez também entrou bem no espírito do vilão.

OS REAIS VILÕES

Como ponto central da história, David Ayer escolheu Magia (Cara Delevingne) como a personagem que levaria os protagonistas a loucura. Mas como você já deve esperar... nada disso aconteceu. Além de Cara realmente não ser uma atriz (e digo isso no sentido mínimo da profissão), a personagem que parecia forte... se perde no meio das tramas picotadas de David Ayer. O mínimo que deveríamos ter acompanhado era uma vilã com uma dualidade mais profunda. Como que você tem nas mãos uma única pessoa que pode se transformar em dois personagens (June Moone e Magia), mas não explora essa dualidade entre elas. David deveria ter nos apresentado momentos em que ambos os lados da mesma mulher se confrontassem. E esse confronto poderia ter vindo na forma de não machucar Rick, já que June realmente gosta dele, ou na ideia da própria June brincar de ser a Magia, como forma de mostrar que as duas personalidades estavam se tornando uma só. Pois é! Mais uma construção de personagem que poderia render algo totalmente rico para a narrativa. No fim das contas, Magia e seu irmão tornam-se mais dois meros vilões que deverão ser derrotados.

CORINGA - A CONSTRUÇÃO NA MEDIDA CERTA

Vai ver que David Ayer ficou com tanto medo de não acertar no Coringa... que fez um ótimo trabalho nele, mas esqueceu dos outros personagens. Rapidamente você vai entender Cinemaster porque Jared Leto era preparado por Ayer em um lugar a parte e separado de todos os outros personagens. Mas de uma forma geral, show de bola! Em Esquadrão Suicida, David Ayer apresenta um outro Coringa, um Príncipe do Crime mais POP. Um Príncipe do Crime que realmente funciona como um gângster. Mas pode ficar tranquilo que a atuação de Heath Ledger continua intacta, mas não porque Leto não vinga o personagem. Ele vinga, mas é que Ayer criou um perfil tão diferente, que realmente dispensa comparações, e digo isso como algo positivo... tanto para Leto, quanto para Ledger.

A relação de Jared Leto e Margot Robbie é inegavelmente muito bonita. Os dois têm uma conexão de puro crime. E o mais interessante, o Joker realmente tem uma atração psicológica pela Arlequina. É fato, Jared Leto é o Coringa, ele se integra ao personagem de uma forma que não há escapatória. Tornando-se, assim, o melhor ator ao longo de toda a narrativa. A imprensa americana chegou a mencionar que suas cenas eram totalmente descartáveis, já que correm por fora da trama principal. Particularmente concordo com 50%, suas cenas correm por fora, mas a relação do Príncipe do Crime é estritamente com a Arlequina. E Ayer executa isso muito bem, apesar da trilha sonora atrapalhar em alguns momentos. No resumo da ópera, se Esquadrão Suicida se resumisse a Coringa e a Arlequina... o longa teria sido mais legal! =D

P.S. Ayer também faz algumas referências ao personagem que chegam a irritar, porque está tão na cara que não precisa explicar o que já está explícito e amplamente perceptível.

DIREÇÃO

David Ayer é um profissional que concentrou sua carreira na arte cinematográfica crua. No tipo de cinema em que a realidade é a base da narratividade. Talvez venha daí o seu fraco manuseio dos efeitos visuais e o pior, das técnicas cinematográficas. Não há uma cena em Esquadrão Suicida que seja memorável. Não houve uma sequência em que eu realmente pensei... 'Nossa, olha a movimentação da câmera". Simplesmente, não houve, Cinemaster. Ayer comete o mesmo erro de Zack Snyder para com Batman V Superman. E eu realmente não entendo qual o problema de Zack e David em aumentar o campo de visão. Quando você trabalha com muitos elementos, o campo de visão para o espectador precisa ser aumentado para que eu e você possamos notar as ações de um modo geral, e não com closes! Não há uma sequência completa em Esquadrão Suicida. Cada trecho de ação é perceptivelmente picotado! Fora a montagem também que é um terror a parte. O fato de Ayer ter estilisticamente uma completa autonomia para dizer o que entra e o que sai da produção não foi, de fato, utilizado com sabedoria. É notório que não houve um planejamento tão detalhado para as sequências de ação. E outra, se há química entre os personagens... é por conta dos próprios atores, mas venhamos e convenhamos que Ayer não os dirige bem. Todos os membros do elenco disseram durante entrevistas que os ensaios eram profundos, que David tirava deles o mais interno dos sentimentos. Realmente não vi nada disso. No fim das contas, Ayer ficou tão despreocupado com a direção, que todos os olhares se voltaram para a história. E conforme eu e você já vimos, que história?! Afinal, não há uma trama concreta em Esquadrão Suicida.

TRILHA SONORA

A trilha é sensacional! Isso é inegável, mas... o pior realmente aconteceu. Uma produção em que a trilha sonora é mais legal que as próprias cenas mostradas. As músicas do primeiro ato se casaram perfeitamente como forma de aprofundamento estilístico de perfil dos personagens. Mas ao longo da narrativa as músicas tornam-se enfadonhas. Há um momento, por exemplo, em que Ayer utiliza apenas um trecho de uma música cantada apenas para uma rápida movimentação realizada pela Arlequina, deixando a situação um tanto superficial. Com relação aos efeitos sonoros, nada demais. Um trabalho que realmente não chega nem perto de ser interessante.

EFEITOS VISUAIS 

Volto a bater na mesma tecla que Batman V Superman. Clímax com cenas ambientadas no período da noite são terríveis, isso é fato. Além de não deixar o espetador totalmente integrado a cena, clímax à noite ajuda a deixar um tanto visível aquelas imperfeições nos efeitos visuais. Os efeitos que fazem parte dos personagens ficaram legais, como o fogo do El Diablo e até mesmo o traje da Magia, mas o terceiro ato é apenas um amontoado de neon, marca registrada da produção.

CENA ENTRE OS CRÉDITOS

Como forma de iniciar uma espécie de conexão no estilo Marvel Studios, a DC/Warner estrearam sua primeira cena ambientada entre pré e pós-crédito do Universo DC de Cinema. Nela, você vai conferir Amanda Waller conversando com Bruce Wayne a respeito dos meta-humanos. E como era de se esperar, a sequência faz uma conexão com Liga da Justiça (e só para você ter ideia do quão marasmo estava a produção, nem mesmo o público presente na sessão se empolgou com a aparição do Flash). Mas nada substancial, Wayne apenas consegue um relatório com mais informações sobre os meta-humanos. E não, a Magia não vai aparecer em Liga da Justiça (hehehehe).

FUTURO

Cinemaster, se eu estava preocupado na forma como Batman V Superman tentou nos apresentar o Universo DC de Cinema... sem sucesso, eu realmente estou decepcionado com o fato de Esquadrão Suicida ter seguido o mesmo caminho. Se Mulher-Maravilha não funcionar... é melhor a DC parar o seu universo compartilhado por um tempo para repensar as ideias, porque, de fato Cinemaster... as ideias não estão batendo. Até quando a DC vai aguentar levar porrada do público e da crítica no sentido de ajustar suas produções para trazer histórias que engajem, histórias emocionantes, histórias que me deixe e te deixe com os olhos arregalados de ansiedade pra saber o que vai acontecer a seguir. Se antes eu estava ansioso por Mulher-Maravilha e Liga da Justiça, já não estou mais. Afinal, não estou preparado pra ver a DC novamente se afundar em seu fraco e pouco criativo universo cinematográfico.

Por: Diego Domingos

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